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2021-02-26

Hélder Duarte: Um treinador obcecado por potenciar jogadores

Três anos foram suficientes para a Associação Black Bulls saltar da terceira para a primeira divisão do futebol moçambicano.

Hélder Duarte:  Um treinador obcecado por potenciar jogadores

Estes feitos foram alcançados com Hélder Duarte ao leme, treinador que antes de chegar ao futebol moçambicano pertencia aos quadros do Futebol Clube do Porto. Apesar de estar actualmente no topo da tabela classificativa, o técnico português prefere ser humilde e afasta o seu conjunto da luta quando se fala da candidatura ao título.

A Associação Black Bulls é um dos clubes mais novos dos 14 que fazem parte da presente edição do Moçambola. A curta história dos Touros, nome de guerra da formação de Tchumene, arredores da Cidade da Matola, Província de Maputo, principiou há cerca de uma década, ou seja, em 2008. Nos primeiros 10 anos, o clube apenas movimentou escalões de formação.

Em 2018, o clube fundado e presidido por Junaide Lalgy decide inscrever-se no Campeonato da Cidade de Maputo no que aos seniores diz respeito, tendo sido contratado Hélder Duarte para dirigir os destinos da equipa. Logo no ano de estreia, os Touros foram campeões da Cidade de Maputo. O primeiro lugar na prova organizada pela Associação de Futebol da Cidade de Maputo valeu ao emblema azul e preto um lugar na Divisão de Honra da Zona Sul.

Naquele certame que antecede o Campeonato Nacional de Futebol, o clube, apesar de ter travado uma luta titânica com as formações da Associação Desportiva de Macuacua e do Desportivo da Matola, sagrou-se campeão de forma inequívoca e garantiu um lugar na elite do futebol moçambicano para 2020. No ano passado a prova máxima do futebol nacional não chegou de se realizar devido a eclosão da pandemia do novo Coronavírus.

“Ninguém vai nos tirar a vontade de trabalhar e de querer ser melhores”

O Presidente da República, Filipe Nyusi, suspendeu o Moçambola por 30 dias como uma das medidas restritivas para conter a propagação da covid-19. Nas quatro jornadas disputadas antes da interrupção, a Associação Black Bulls, com 10 pontos, frutos de três vitórias e um empate, liderava de forma isolada. Mesmo reconhecendo o potencial da formação que treina a três anos, Hélder Duarte reconhece que não esperava liderar a prova a esta altura.

“Não esperávamos estar a quarta jornada isolados na primeira posição. Queremos fazer um bom campeonato. Estamos cientes das nossas capacidades e pelo que temos vindo a desenvolver nos últimos três anos. Pretendemos ser competitivos e ganhar todos os jogos, mas sabemos que isso não será possível porque temos equipas com muito valor e com maiores investimentos em relação ao nosso e, por outro lado, com ambições acrescidas. Temos as nossas limitações, mas ninguém vai nos tirar a vontade de trabalhar e de querer ser melhores”.

Liderar a fina – flor do futebol nacional não altera os objectivos do clube. Os Touros querem dar continuidade ao que vem fazendo desde o campeonato da cidade, ou seja, procurar vencer o maior número de jogos e fazer as contas no final do campeonato.

“Temos metas traçados e que passam por entrar em campo para vencer desde os iniciados até os seniores. Não é por sermos primeiros que vamos mudar o chip e planos. O nosso objectivo é jogo a jogo e depois no final faremos as contas. No nosso balneário a tabela esta invertida para os jogadores não entrarem em euforias com a posição que ocupamos. Estamos preocupados em devolver jogadores e potenciá-los porque nunca ninguém foi campeão a quarta jornada”.

O grosso dos clubes dos grandes clubes do futebol internacional lutam sempre pelos títulos, mas não deixam de apostar na formação. Mesmo estando no Moçambola, Duarte não deixa de olhar para a formação e afirma que a ABB tem critérios definidos na escolha de jogadores.

“Não escolhemos o atleta por mero acaso. Identificamos o talento e os jogadores para aquilo que é a nossa ideia de jogo. Há processos contínuos que partem dos iniciados até aos seniores, uma vez que os jogadores já pensam na nossa forma de jogar. Só para se ter uma ideia, o nosso quarteto defensivo no jogo contra o Ferroviário está a três anos connosco. São jogadores que conhecem as nossas dinâmicas de jogo e sabem o que queremos, ou seja, são atletas que conhecem a nossa metodologia de treino e princípios. Não formamos só atletas, queremos contribuir para a formação do homem. Para quem já prestou atenção nos nossos jogos nenhum jogador deixa papel e recipiente de água jogados no chão. Temos princípios e regras de conduta”.

“Há clubes que apostam seriamente na formação em Moçambique”

Mesmo sem público nas bancadas, o futebol praticado pelos Touros tem encantado os exigentes adeptos do futebol nacional. Instado a falar dos segredos da forma de jogar do seu conjunto, Hélder Duarte foi parco nas palavras, salientando que o futebol da ABB é sustentado nas ideias das camadas bases do FC Porto.

“Quero que as minhas equipas procurem o golo, tomem a iniciativa, sejam ofensivas, tenham posse. Às vezes não é possível. Mas mesmo contra equipas mais fortes, quero que os meus jogadores tenham a coragem de desenvolver seu jogo. Trouxemos uma ideia de jogo usado nos escalões de formação do FC Porto e tentamos introduzir essas ideias aqui na ABB. Tivemos uma vantagem de chegarmos cá e iniciarmos o projecto e isso foi importante para implementamos as nossas ideias. O nosso trabalho é transversal, ou seja, ele começa nos sub-10 e vai até aos seniores. Eu sou treinador dos da equipa principal e dos sub-17. Os atletas da ABB que estiveram na Taça Cosafa trabalharam comigo. Temos ainda o Inácio que treina a equipa B e os sub-13. Ter uma boa formação na base é importante para os aspectos que queremos desenvolver nos seniores e pelos vistos está a dar resultados”.

No último mês do ano passado, Moçambique conquistou o primeiro título internacional da sua história. A selecção nacional de futebol na categoria de sub-20 foi a detentora desta façanha e o grosso dos jogadores que brilharam na prova pertencem aos quadros da ABB. Duarte mostrou-se feliz pela conquista e divide os louros com as equipas que apostam na formação no país.

“O mérito não é só da ABB. Em Moçambique há clubes que apostam na formação. O Ferroviário de Maputo e o Ferroviário da Beira tem trabalhado muito na formação de jogadores. Esses dois clubes têm bons jogadores e até temos alguns jogadores que pescamos neles. Há muita qualidade na formação em Moçambique. A formação acarreta custos. Temos uma academia que nos permite ter 50 atletas de todas as províncias graças ao trabalho de caça de talentos que fizemos, mas são custos elevados, uma vez que a alimentação, hospedagem e escola e o clube quem paga. Os pais desses atletas confiaram-nos de formar o homem do amanhã. Quanto mais equipas apostarem na formação as nossas selecções terão sucesso”.

O grosso dos treinadores nacionais sempre reclamou da qualidade do jogador moçambicano, declarando que o mesmo chega aos seniores com viárias lacunas. O treinador da ABB comunga da mesma ideia, mas deixa um reparo. “Temos que aceitar essa realidade e procurar os factores que contribuem para isso. Há que olhar a qualidade dos campos e a qualidade dos treinadores que trabalham na formação. Venho da formação do FC Porto e todos sonhávamos um dia chegar a equipa principal, mas os melhores devem trabalhar na formação e isso exige investimento.

A interrupção do Moçambola vai, de certa forma, quebrar o ritmo das equipas no ponto de vista do treinador português. “Ficamos quase um ano sem competições. Começamos a treinar para o Moçambola e agora a prova está suspensa é obvio que esta paragem vai quebrar o ritmo das equipas. Agora os atletas treinam em casa e com isso não temos como desenvolver as suas capacidades”.

Costa do Sol e Ferroviário de Maputo foram os adversários mais difíceis

Hélder Duarte já defrontou mais de duas dezenas de equipas desde que chegou ao futebol moçambicano. Convidado a escolher os rivais mais difíceis dos que já mediu forças, Duarte escolheu o Costa do Sol e o Ferroviário de Maputo.

“Ainda não defrontamos todas as equipas, mas o Ferroviário de Maputo e o Costa do Sol são sempre equipas que nos criam dualidades e mais desafios. Ainda não jogamos com a União Desportiva de Songo e com o Ferroviário da Beira, os Canarinhos e os Locomotivas são equipas que nos obrigam a outras coisas”.

Se por um lado, reconhece as lacunas evidenciadas pelos jogadores moçambicanos, por outro, o técnico considera-se um treinador estudioso, uma vez que procura beber de muitos técnicos experimentados para ser um timoneiro rico.

“Cada treinador tem a sua individualidade e nós somos por natureza estudiosos. Primeiro isso se deve ao facto de cada treinador ter a sua maneira de ser e de estar. Eu não me inspiro em nenhum treinador. Procuro beber de todos para me tornar um técnico rico. No presente, em Portugal, o Ruben Amorim é quem está na mó de cima e na época passada era o Sergio Conceição sem esquecer o Jorge Jesus que ganhou títulos fora. A nossa maior referência e é o Jose Mourinho que ganhou tudo o que havia para ganhar. Vamos bebendo de alguns os aspectos técnicos e tácticos, de outros a maneira de estar e de ser e dos outros a liderança”.