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2021-04-22

Estevão Gerson Massango: um barbudo que chegou, viu e brilhou no futebol moçambicano

Em 2013, chegou como um mero desconhecido ao futebol moçambicano e depois de pouco tempo foi um dos melhores centrais a jogar em Moçambique.

Estevão Gerson Massango: um barbudo que chegou, viu e brilhou no futebol moçambicano

Dono de um excelente jogo aéreo e um autêntico terror para os avançados, Estevão Gerson Estevão Massango, trocou o terceiro escalão do futebol português pelo Moçambola, onde até ao presente exibe o seu valioso perfume.

Gerson, carinhosamente tratado nos meandros desportivos por Barbudo, confessou que nunca teve a intenção de trocar o futebol luso pelo moçambicano, mas mesmo longe sonhava em um dia vestir a camisola dos Mambas.

“Chego ao Costa do Sol através do mister Nelson Santos que procurava na altura um central. Ele tinha uns olheiros em Portugal que eram amigos dele e foram ver uns jogos meus e gostaram do que viram. Sempre tive a intenção de fazer parte da selecção nacional e mesmo estando a jogar em Portugal. Foram muitas as épocas que fiz no futebol luso, mas não era suficiente para ter visibilidade por cá, uma vez que estava na terceira divisão nacional. Hoje em dia as coisas mudaram e há maior visibilidade”, disse Gerson para depois acrescentar que quando chegou de malas e bagagens o futebol moçambicano não tinha os problemas que enfrenta no presente.

“Cada vez tem sido difícil ser uma liga estável. A situação do covid-19 veio piorar a situação. Se não melhorarmos, sinto pena dos mais novos que estão a aparecer e querem dar o salto para outros campeonatos de maior expressão a nível mundial”.

O futebol é uma modalidade universal, contudo, há ligeira diferença no que respeita aos campeonatos disputados na “mãe” África e do velho continente. Quando ingressou no Costa do Sol Gerson deparou-se com uma realidade diferente da que estava acostumado, tendo sentido algumas dificuldades no que respeita ao clima.

“O futebol europeu está a um passo largo da nossa realidade. Até em pequenos pormenores. Como a organização de um calendário futebolístico e claro sem entrar na rotina administrativa ou outras coisas similares. Não foi fácil me adaptar ao clima, acho que até hoje não estou habituado ao calor. Jogar com 30 graus não é o mesmo que jogar com 20. Os campos não são todos iguais a um campo da Liga e UDS”.

“No Costa do Sol encontrei um dos melhores grupos de trabalho”

Três anos depois de 2010, ou seja, em 2013, O Costa do Sol tinha um dos melhores planteis do futebol moçambicano, mas Gerson conseguiu chegar, ver e brilhar, tendo feito ao lado de Dário Khan uma das melhores duplas de centrais do Moçambola. O Barbudo acredita que o segredo para o sucesso imediato no futebol nacional foi uma questão de fidelidade aos seus princípios.

“Acreditar que mesmo nas dificuldades podemos ultrapassar cada obstáculo com trabalho é uns dos princípios da vida. Naquela época apanhei um dos melhores grupos de trabalho até hoje que estou em Moçambique. Os meus colegas eram excelentes. Dário Kahn transmitiu me muita confiança, recebeu me de peito aberto e era um senhor em campo, muito agressivo mas sempre com consciência intacta”.

Manuelito, por sinal hoje seu colega no Desportivo de Maputo, Salomão, actualmente no Costa do e Elias Bong, central do ENH, faziam parte do plantel canarinhos às ordens de Nelson Santos. Gerson conseguiu superar a concorrência dos três, mas enche-os de elogios.

“Manuelito era um central com muita classe, daqueles jogadores que corresponde em qualquer posição. Salomão na altura estava a mostrar que poderia vir a ser um dos melhores defesas centrais em Moçambique e tínhamos mais Elias Bong que era um miúdo com muita qualidade. Então naquele ano tudo foi perfeito para a equipa e para mim porque encontrei jogadores com muita qualidade e isso fez com que eu treinasse ainda mais porque queria ser melhor que eles a cada dia”.

O sonho de vestir a camisola dos Mambas cumprido

Na primeira época do Barbudo no futebol moçambicano, o Costa do Sol era considerado pela crítica desportiva nacional como a equipa que praticava melhor futebol no país. Contudo, mesmo com as exibições de encher o olho, Nelson e os seus “Santos” rapazes não conseguiram terminar ganhar o Moçambola.

“Estivemos próximos do título. Acho que faltou sermos mais competentes em alguns jogos. Se não conseguimos ser campeões é porque falhamos em algum momento. Só é campeão quem consegue ultrapassar todos os obstáculos e nós nesse capítulo tivemos momentos que fizemos vénia em vez de nos impormos como equipa que estava à procura de sucesso no fim do campeonato”.

As excelentes exibições de Estevão Gerson Massango com a camisola do Costa do Sol despertaram a atenção do selecionador nacional, João Chissano, que e o convocou para fazer parte do grupo que disputou a Taca Cosafa e as eliminatórias de acesso ao CAN-2017.

“A equipa do Costa do Sol estava a fazer um grande trabalhos. Fizemos um bom campeonato e praticávamos um futebol agradável, isso provavelmente chamou a tenção dos selecionadores. Penso que me exibia em grande plano e por via disso fui chamado para cumprir um dos meus sonhos que era a defender a bandeira do meu país. Na altura foi tudo muito rápido”.

Entretanto, a aventura no combinado nacional durou pouco tempo. Depois da saída de Joao Chissano, Gerson deixou de ser opção. “Questionei-me onde estaria a falhar. O que podia melhorar … Trabalhei para voltar a ser opção. Nunca aconteceu mas não me debruço sobre essa situação. Nem tudo na vida é como desejamos, existem momentos altos e baixos. Quando estamos num bom momento temos que saber tirar partido e trabalhar para manter no mesmo. Quando estamos em baixo temos que lutar para chegar ao cimo”.

Depois do Costa do Sol seguiu-se a Liga Desportiva de Maputo

Depois de três épocas no ninho do canário, clube pelo qual Estevão Gerson Massango, jogador que foi duas vezes vice – campeão nacional, viu-se obrigado a embarcar para outro projecto por entender que as pessoas passam e as instituições ficam.

“Passei três anos bastante bons ao serviço do Costa do Sol. Fui duas vezes vice – campeão nacional, conquistei uma Taça de Moçambique e ainda ganhei provas a nível da Cidade de Maputo. Simplesmente o clube já tinha outras ideias para o futuro. Já não contavam com os meus serviços mesmo depois de uma boa época. Os clubes ficam e os jogadores passam, esta foi sempre a minha mentalidade. Quando estou num clube serei a alma daquele clube, mas no momento que o clube não quiser mais o meu serviço seremos amigos na mesma”.

Depois do Costa do Sol seguiu-se a Liga Desportiva de Maputo e logo na primeira época, Gerson conseguiu ser vice – campeão, por sinal pela terceira vez desde que ingressou no futebol moçambicano, mas, como os atletas passam e os clubes ficam, depois de três época transferiu-se para o Desportivo de Maputo, sendo no presente é um dos pilares da equipa orientada por Rogério Mariani.

Apesar de actualmente estar com 33 anos de idade, Gerson não vislumbra o final da carreira, ainda quer desfrutar da modalidade das massas. “Penso que 33 anos não é uma idade para deixar se de jogar, por isso, não diria que este é meu último ano. Queria jogar mais pelo menos para dizer que sim, já chega. Há quem diga que um jogador chega ao seu máximo quando chega à casa dos 30, uma vez que traz consigo uma bagagem rica, mas no presente a vida está a fazer nos tomar decisões que talvez nunca sonhamos, mas que sabíamos que um dia chegaria”.

Isac, Evanga, Miquessone e a morte de um colega em campo

O futebol é uma modalidade feita de alegria e tristezas. Gerson já experimentou os dois momentos desde que iniciou a carreira. Guarda nostalgicamente todos os momentos, mas há um que vai o marcar para eternidade.

“Presenciei algo que não desejo a ninguém em campo. Ver um colega a partir em pleno jogo é uma das coisas que me ficará mesmo para sempre. É sempre positivo quando fazemos o que gostamos de fazer e jogar futebol é uma delas. Há coisas que não se trocam por qualquer preço, a alegria do balneário, as subidas de divisão, conquistas e, sobretudo, as amizades para toda vida”.

Desde que se iniciou no futebol já teve despiques com muitos avançados, mas no panorama futebolístico nacional declara que Eva Nga, camaronês que fez do Moçambola trampolim para se transferir para o futebol sul – africano, é um jogador que desgasta um defesa.

“Tive a oportunidade de jogar com Isac como adversário e como colega, acho que é um jogador inteligente. Luís Miquissone, actualemente no Simba da Tanzânia, é um jogador chato. O jogador que desgasta uma defesa é o Eva Nga. Não é moçambicano mas partilhou o nosso campeonato. É um jogador que fadiga qualquer defesa”.

De referir que antes de chegar ao futebol moçambicano, em Portugal Gerson defendeu as cores do Frielas, Malveira, Charneca, Tourizense e Futebol Benfica, sendo que no último logrou o feito de ser campeão da terceira divisão nacional.